O Bon Vivant
Oh! Se deveras devo dizer que minha vida sempre foi um
tremendo acumulo de infortúnios, estarei mentindo. Muito ao contrario de
infortúnios, sempre vivi bem, muito bem. Sou o que muitos desafortunados chamam
de um bom vivant. Para aqueles leigos,
sou um típico homem de jovem idade com grande poder aquisitivo e social. Sempre
nas melhores festas e eventos, tudo sem me preocupar com o dinheiro ou minha
posição diante ao publico, uma vez que essa é tão fácil de manejar. Sabe-se muito bem que os bon vivant’s são
muitas vezes discriminados, apenas por que temos como pagar ou nos divertir sem
nos preocupar com o dia de amanham; quer dizer, até o dia de depois de amanham.
Ou seja, aquele que é o próximo dia seguido deste que esta entrando.
Compreendez? Pois, o que é inveja ou
ciúme senão uma luz no meio do farol? Uma sombra no meio da noite!? Por que
teimam as pessoas em desejar o que é meu? Horas, eu tive todos os meus
problemas, claro. Como por exemplo, certa vez na mercearia, comprando meus
mantimentos diários, não possuía trocados para um delicioso charuto de origem
espanhola, horas, aquela divina marca, lembro-me muito bem de tê-lo provado em
um baile, quando conheci Madame Fonsuela Foxtrot. Sim era um nome horrendo, mas
deverá mente não combinava com a doce e linda dama a qual tive as
oportunidades, de desonrar seu marido. Huhuhu. Não me julguem, sou humano
horas! Não sou como vocês trabalhadores de todos os dias, mas, somos todos
humanos, apenas alguns merecem uma vida devassa e divertida, enquanto outros
merecem uma vida mais esforçada. Às vezes eu invejo sabem? Infelizmente não é
somente loucura e diversão, já estou em meus 27 anos, estou velho e temo morrer
sozinho. Sabe-se de uma cousa? Eu juro que odeio essa vida que levo. Por que?
Alguns devem estar me chamando de todos os piores adjetivos nesse momento,
difamando minha família e especialmente a minha querida e doce mãe. Horas,
devolvo-lhes com o dobro! Mas, seriamente, para aqueles que ficaram curiosos
sobre a história de minha vida tranquila e despreocupada, peguem uma das minhas
cadeiras feitas exclusivamente em terras holandesas, vindas em naus gloriosas;
nas águas de Mare Nostrum.
Certo dia depois de minhas maravilhosas passeadas por toda a
cidade, conheci um pequeno beco, abandonado com grandes folhas e trepadeiras
crescendo ao redor de seus muros. Adentrei e esqueci-me completamente que
estava anoitecendo, quando tudo ficou completamente negro e não enxerguei um
palmo a minha frente, percebi que havia me perdido. Não sei o que me
impulsionou, deve ser aquela sensação de que “sou imortal” que os homens,
especialmente os vivant’s tem. Ai de
mim, depois que minha visão se acostumou notei que havia entrado em uma sala
que apesar de um dia ter sido ser toda mobiliada hoje se encontrava um tremendo
aglomerado de negritudes queimadas. Partiu meu coração ao ver aquela coleção de
livros. Todos enegrecidos (e todos ao que pude identificar volumes majestosos
de obras que nunca consegui comprar) pelas chamas passadas numa antiga estante
de livros que por milagres cósmicos e divinos de todo um panteão de deuses, não
caiu por terra. Andei e andei, até que me deparei com um enorme poleiro de
pássaro sem gaiola. Sim, era a única peça intacta. No topo um lustroso corvo.
Penas negras e uma estranha luz lunar entrando intensamente sobre meu amigo
penoso. Parei de frente para ele ainda carregando as novas edições de livros
que havia adquirido e um jornal com uma semana de atraso (de todas as coisas
que mais me deixavam irritado era a incapacidade de existirem jornais mais
precisos), fiquei observando-o um tempo. Depois tive coragem para papear com
meu novo amigo.
“-Olá bom senhor Corvo. –sorri para este, oferecendo meu
jornal a ele – Algum artigo que lhe interesse?”
“ –Ah – respondeu o Corvo sem abrir o bico, apenas fixando o
olhar de cigana em mim – o jornal só me traz o tédio. Agradeceria se ai ouve-se
alguma edição de Nietzsche ai. O senhor a possui?”
Fiquei pasmo, deixei o jornal e os livros caírem (hoje me
arrependo, pois até hoje meu romance tem manchas de fuligem), dei dois passos
para trás e bati em uma parede começando a suar frio e com o coração batendo. A
ave falara se fosse uma espécie nova eu ficaria mais rico e mais famoso, mas
era um corvo! Todos sabiam que corvos não falavam, por um segundo, a chama mal
acessa de fé em meu peito pareceu aumentar, pensei em Satanás ou Hades. Em
Nietzsche também, pois o amigo plumado parecia gostar, e caia somente entre
nós, acredito que combinaria mais com os “C.
Corax “ da vida ler esse tipo de filósofo do que ler algo como o digníssimo
Tomas Antônio Gonzaga.
“ –Ah – voltou meu amigo penado – acalme-se. Façamos um
acordo bom homem. Você arrumara-me algo, que lhe realizo todo e qualquer
desejo.”
“ –Primeiramente – respondi, me recompondo e curioso com a
proposta de meu estranho amigo – gostaria de saber se és um amigo ou uma amiga.
Dependendo desse pedido acho que serei incapaz de...Como posso dizer?
Executa-lo. – aqui uma pequena risada que os vivant’z dão quando uma piadinha
deliciosamente negra surge em suas cabeças”
O que ocorreu foi doentio, tudo ficou escuro um segundo e
logo, bam! Estava de frente ao homem mais belo (e assustador [deuses ouçam-me
para que ninguém além de ti saiba desse comentário]) que já conheci em toda
minha vida. Ficava sentando no poleiro como se nada se ouve de diferente a uma
poltrona, usava uma roupa mais luxuosa que a minha (e veja-te que sou vaidoso).
Grandes cabelos negros que chegavam graciosamente aos ombros e escondiam em
parte seu rosto que era delicado e totalmente barbeado. Não usava luvas, ou
sapatos, todas as unhas dos pés e das mãos estavam pintadas com um denso negro
e os olhos azuis claros como o oceano sem fim passavam a ideia da falta de vida
como a pele branca como a neve dos Montes Urrais mostrava-me que não era vindo
de lugar exótico algum. Por um momento fiquei pasmo com a beleza do
Homem-Corvo, ele estalou os dedos de uma
das mãos e voltei a realidade.
“ –Traga-me um exemplar novo e bastante sedutor de Ecce Homo. E realizarei qualquer desejo seu.
– ele sorriu, os dentes brancos me deram vontade de agarra-lo – Quanto a isso
meu bon vivant, diga-se que não o dispenso. – por sorte suprema eu tinha
exatamente o que o Corvo pediu, corri até os livros caídos que comprara e
esticara o volume para o mesmo, um pouco coberto de fuligem, mas ele encarou-o
estupefato, com um sorriso delicado de satisfação – Você está me galanteando –
pegou e não perdeu tempo, começou a lê-lo e falar comigo sem me observar –
obrigado bom amigo, que seu humilde companheiro ira realizar para ti?”
Naquele momento
milhões de oportunidades surgiram em meus olhos, poderia desejar mais dinheiro,
mas seria desejo gasto. Podia desejar ser um rei e poder governas supremo pelos
restos de meus dias uma nação. Talvez alguém abaixo de um rei, mas de
igualitária importância. Seja como for, as palavras saíram por meus lábios
inconscientemente.
“-Quero um dia como
uma pessoa comum. – sem me olhar, os dedos dele se ergueram enquanto ele ainda
foleava as primeiras paginas que grandiosa obra era. Estalou os dedos erguidos
e voltou a segurar o livro com ambas as mãos, jamais me olhando. – Vá, a
cobrança é na mesma hora que agora de amanham. – nessa parte fiquei meio
confuso, mas ele deveria estar concentrado na leitura, agora para me despedir restou
a duvida. Beijava a palma da mão dele ou erguia o chapéu? Demorou pouco até ele
erguer a mão e eu beija-la involuntariamente. Pegando meu jornal e livros
restantes, sai da casa e me encontrava no mesmo beco ao qual havia entrando
antes, mas antes de me retirar pude ouvir a voz de veludo do galanteador Corvo - A vantagem de ter péssima
memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a
primeira vez. – retirei-me para casa.”
No dia seguinte ao acordar percebi que havia perdido tudo e amanhecera
em uma casa mal acabada e com roupas piores ainda, abatido por isso, corri pela
casa e percebi que não havia comida que sempre comia, apenas um peixe salgado e
cheio de moscas na parede. Não posso dizer por quanto tempo corri e me
desesperei. Só sei que fiquei nisso e quando notei estava em meu quarto. Aquele
maldito estava nas ultimas paginas de seu presente e esperei de quatro no chão
desesperado pela minha ruina, o meu “amigo” terminar meu primeiro e
provavelmente ultimo presente a ele. Ao fechar o livro, colocou-o no colo e
sorriu me observando.
“ –Amanham volto para cobrar a divida. – eu fiquei pasmo
como havia acordado e me levantei com tudo”
“-Você disse isso ontem! – respondi, gesticulando furiosamente
com os braços – Devolva-me minha vida! Por que não avisou que seria tão
difícil?!”
“-Não é meu dever avisar as consequências de seu desejo –
ainda sorria, ave nojenta – e quanto ao ontem e amanham, isso é relativo. Tudo
ponto de vista, a partir do ponto de meu ponto de vista hoje foi o seu ontem, e
meu ontem foi anteontem. E claro, amanham
é o dia depois desse. – eu cai de joelhos na frente dele, juntei as mãos e
podia sentir lagrimas correndo por meus olhos, ele queria-me na ruina! Como
pude ser tão estupido?! – Implorando agora? Vivant... Que decepcionante visão.”
“ –Clemencia! – gritava – Clemencia bom amigo! Que fizeste a
ti além de garantir-te teu livro e uma boa amizade?! Piedade! Lhe rogo!”
Ele tirou de algum lugar um papel bem amassado e com varias
coisas escritas, em letras microscópicas. No conjunto, na sua outra mão uma
caneta de pena pingando tinta... Uma pena negra. Mandou-me assina-lo.
Assinei-o. Ele sorriu, levantou-se e me
deu um beijo na bochecha direita. Mandou-me dormir e levou Ecce Homo com o
papel. Ao acordar no dia seguinte acordei-me numa casa mais luxuosa ainda.
Sozinho como sempre. E estou aqui como podem ver, na mesma casa a qual acordei,
vocês podem ter percebi a obra de Ecce Homo em um dos criados mudos. Eu não
contei o pior dessa casa, o pior é toda noite acordar varias vezes com o som ou
de passos na sala de baixo, ou com batidas na madeira da porta do quarto... Por
isso mantenho a porta e janela fechada. A janela às vezes acorda-me com sons de
bicadas no vidro e a cama me acorda pelo fato de simplesmente afundar às vezes
em meus pés e algo bem físico encostar-se a minhas pernas. Também posso ouvir
versos de algo em alemão antes de encontrar Ecce Homo ao meu lado na manha
seguinte. Simplesmente acordo; coloco o
livro em seu lugar; como; saio e depois de festas recolho-me em minha casa,
sempre antes das sete da tarde. Dinheiro não é problema para mim, mais dias
depois de assinar o papel, encontrei-o ao meu lado sobre o livro. O li.
Não posso concluir nada, pois vivo para ser um bon vivant.
Não posso me casar, pois os bon vivant’s não se prendem a
uma mulher.
Não posso ter filhos, pois não tenho se quer uma alma para
gerar uma vida.
Nesse ponto eu já estaria rezando para mil deuses, mas não
posso acreditar neles, pois religião impede-me de viver devassamente.
E essa é a historia de minha vida, ontem, hoje e amanham.
Até o ultimo dia de minha vida mortal ou até o ultimo momento de desejo do
Corvo. Agora, se todos vocês puderem fazer-me a gentileza, gostaria que se
retirassem que já são 18:30. Obrigado pela visita de todos vocês.
Ah sim, e, por favor, nunca mais voltem. Obrigado.
Viver é realizar. Queridos.
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Autoria de seu querido e amado Nec Mizurian! Nec Mizurian tras a voces o poder dele, pois Nec Mizurian é reencarnação de Machado de Assis! HAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!
Bom! Muito Bom! Realmente lembrou Poe... mas é Mizurian. Não sabia que tinha essa habilidade toda seu cretino! Pelo visto estou bem atrás de você na maratona pelo Hugo!
ResponderExcluirEi voce ainda achava que eu era pouco cache motherfucker?
ResponderExcluirReservem o Hugo pois os thirians não tem capacidade de vencer os **** (o nome foi censurado para o sucesso da obra)!
Mas enfim, bueno que gostou, levou o que? Dois dias.. 1 se descontar as pausas... Isso é o resumo, logo posto aqui a versão integral.
Ficou legal, apenas lhe aconselho a ler novamente e corrigir alguns erros de português.
ResponderExcluirSeu conto me lembrou aquelas histórias antigas de lições de vida do qual sempre tem uma pessoa que tinha tudo mais não é feliz de verdade.